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Trauma de Infância e Dinâmicas Familiares

"A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou." 

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O trauma de infância não se reduz aos acontecimentos dolorosos do passado, mas traduz-se no impacto neurobiológico e psíquico que estes deixam no presente. Quando uma criança cresce num ambiente pautado pela imprevisibilidade, negligência, rejeição ou abuso (físico, emocional ou sexual), o seu sistema nervoso em desenvolvimento adapta-se para garantir a sobrevivência. Esta resposta adaptativa - essencial na infância - converte-se, na idade adulta, num estado crónico de hipervigilância, desregulação emocional e dissociação.

O desenvolvimento do trauma precoce (frequentemente enquadrado como Trauma Complexo ou C-PTSD) altera a forma como o indivíduo perceciona a segurança, o perigo e as relações interpessoais. Em adultos, as feridas de infância manifestam-se através de:

  • Desregulação do Sistema Nervoso: Dificuldade em encontrar estados de calma, oscilando entre a hiperativação (ansiedade, ataques de pânico, reatividade) e a hypoativação (colapso, apatia, sensação de anestesia emocional).

  • Dissonância Identitária e Vergonha Cronificada: Internalização da crença de que a invalidação ou a dor vividas foram responsabilidade da própria criança, gerando sentimentos profundos de inadequação.

  • Padrões de Vinculação Disfuncionais: Tendência a reproduzir dinâmicas de dependência emocional, medo do abandono, dificuldade em estabelecer limites saudáveis ou esquiva de conexões íntimas por associação inconsciente entre vulnerabilidade e perigo.

  • Somatizações e Sintomas Físicos: Expressão do sofrimento não reprocessado através do corpo, manifestando-se em dores crónicas, perturbações gastrointestinais e exaustão do sistema imunitário.

O Caminho de Reprocessamento e Integração

A superação do trauma de infância requer transcender a mera análise racional das memórias, acedendo às camadas onde o trauma ficou registado: no corpo, no sistema nervoso autónomo e na arquitetura inconsciente.

A intervenção psicoterapêutica especializada e neurobiologicamente informada permite:

  • Restabelecer a Segurança Neurovegetativa: Oferecer ao corpo a experiência de regulação e presença que faltou na infância.

  • Dessensibilizar e Reprocessar as Memórias Implícitas: Trabalhar o impacto emocional dos acontecimentos através de abordagens somáticas, hipnoterapia e psicodinamismo.

  • Reparar as Partes Psíquicas Fragmentadas: Desenvolver a capacidade de auto-compaixão, acolhendo a criança interior vulnerável a partir da estrutura adulta e consciente do Self.

  • Reconstruir Limites e Autonomia: Capacitar o indivíduo para discernir entre os perigos do passado e as escolhas do presente, permitindo a construção de relações pautadas pela reciprocidade e respeito.

 

A libertação das marcas do trauma precoce não apaga a história vivida, mas retira-lhe a capacidade de ditar o futuro. É o processo de transição da mera sobrevivência defensiva para a vivência autêntica, integrada e plena.

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Qr Code Cristina Fernandes
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