4 Mitos dos Relacionamentos Tóxicos
- Cristina Fernandes

- 13 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: há 17 horas
A esta altura, é provável que já tenhas reconhecido que estiveste numa relação abusiva com alguém profundamente manipulador e que estejas a começar a perceber o impacto que essas experiências tiveram na tua vida. Ou talvez conheças alguém que está a atravessar esse momento de vida...

Quero partilhar contigo 4 mitos muito comuns sobre o processo de recuperação após o abuso narcisista — ideias que, sem dares por isso, podem manter-te preso(a) ao ciclo de repetição: voltas ao mesmo agressor ou encontras novos com um padrão semelhante, porque as feridas mais profundas ainda não foram verdadeiramente cuidadas.
Mito 1 – Agora que descobri o que é “abuso narcisista” e identifiquei os narcisistas na minha vida, tudo vai melhorar
Encontrar a expressão “abuso narcisista” é, muitas vezes, um verdadeiro alívio. De repente, percebes que:
não foi “culpa tua”
isto é uma realidade que acontece a milhões de pessoas
não estás sozinho(a)
Esse momento de descoberta é importante, mas é apenas o início da jornada. Faz parte do primeiro estágio da recuperação.
Depois de colocares nome ao que viveste e perceberes a dinâmica do narcisismo, continua a ser necessário fazer o trabalho interior:
Identificar o que, dentro de ti, precisa de cura e de mudança, para que deixes de tolerar abuso.
Transformar crenças sobre ti próprio(a) (“não sou suficiente”, “ninguém me vai amar”, “tenho de me adaptar ao outro para não ser abandonado(a)”).
Actualizar atitudes e comportamentos para que possas atrair e escolher relações saudáveis, onde és genuinamente respeitado(a) e valorizado(a).
Reconstruir a tua vida com mais alinhamento, paixão e propósito, em vez de viver apenas em função da dor e da defesa.
Informação liberta, mas não substitui a cura.
Mito 2 – Cortar contacto (ou manter contacto mínimo) com o agressor significa que já estou curado(a)
Estabelecer nenhum contacto (ou o mínimo indispensável, por exemplo quando há guarda partilhada de filhos) é um limite essencial. Esse corte:
protege-te de novo abuso
impede que sejas constantemente reactivado(a)
cria o espaço seguro de que precisas para começar a sarar
Sem esse limite, ficas preso(a) num ciclo de retraumatização: cada mensagem, chamada ou encontro pode deitar por terra o que já tinhas avançado.
Mas é importante compreender: ausência de contacto não é o mesmo que cura interior.
Se não trabalhares o trauma e as feridas emocionais que ficaram, a tua mente e o teu corpo vão continuar a:
atrair ou aceitar novas pessoas abusivas
repetir padrões de relação muito semelhantes, apenas com “rostos diferentes”
Isto não é fraqueza tua; é a forma como o inconsciente tenta resolver o que ficou por integrar.Até que faças o trabalho de autocura, o padrão tende a repetir-se e, com cada nova relação abusiva, o trauma aprofunda-se.
Cortar contacto é um passo fundamental. Curar o que o contacto destruiu é outro passo, igualmente indispensável.
Mito 3 – Contar a minha história vai fazer a dor desaparecer
Poder contar o que viveste é extremamente importante:
Dá voz a quem foi silenciado.
Quebra o “mandato de silêncio” imposto pelo abuso.
Desmonta a mensagem de que “és louco(a)” e “ninguém vai acreditar em ti”.
Alivia o peso de carregar tudo sozinho(a).
Falar é, sem dúvida, um acto de poder pessoal. Mas, por si só, não chega para curar o trauma.
O trauma não fica armazenado apenas nas áreas do cérebro ligadas à linguagem e à memória narrativa. Ele vive sobretudo:
nas zonas emocionais e mais primitivas do cérebro
no sistema nervoso
no corpo (tensões, sintomas físicos, estados de alerta permanente)
Ou seja, podes entender racionalmente o que aconteceu, contar a tua história de forma coerente e, ainda assim, continuar:
em hipervigilância
com flashbacks emocionais
com dificuldade em confiar
a sentir culpa, vergonha ou medo
A terapia de conversa pode ser um apoio valioso, mas não basta falar sobre o trauma para o transformar.É preciso recorrer a um trabalho interno mais profundo e holístico, que envolva:
corpo
emoção
crenças profundas
padrões de relação
e, muitas vezes, também a dimensão espiritual e de sentido
Mito 4 – O tempo cura tudo
Esta é uma das frases que mais vais ouvir de quem não compreende o que é um abuso narcisista:“Dá tempo ao tempo, vais ver que passa.”
Para muitas separações, isto até pode ser relativamente verdade.Mas, quando a relação foi com um narcisista, o cenário é bem diferente.
É comum ouvirem-se histórias de pessoas que:
deixaram o agressor há meses ou anos
e, ainda assim, continuam a sentir-se em cacos por dentro
e a atrair novas pessoas igualmente abusivas ou manipuladoras
O tempo pode:
atenuar a intensidade da dor imediata
criar distância em relação a eventos e pessoas
Mas o tempo, por si só, não cura trauma.Pelo contrário, quando nada é trabalhado internamente, o tempo pode até jogar contra ti:
meses e anos em estado de impotência, confusão e desesperança
padrões repetidos em relações íntimas, no trabalho e na família
desgaste progressivo na autoestima, na confiança e até na saúde física
Cada nova situação abusiva acumula trauma sobre trauma, aprofundando:
medo
desconfiança
desvalorização pessoal
sintomas de ansiedade, depressão e esgotamento
É por isso que tantas pessoas que passaram por relações abusivas desenvolvem formas de Perturbação de Stress Pós-Traumático Complexo (TEPT-C).
Não é fácil recuperar após o abuso narcisista, mas é possível.Implica um trabalho consistente, ao longo do tempo, nas partes de ti que ficaram mais feridas por estas experiências.
Porque é que estes mitos são tão comuns?
Hoje existe muita informação disponível sobre narcisismo e abuso narcisista, o que é extremamente útil para compreender o que te aconteceu e com quem estiveste envolvido(a).O problema é que muitas pessoas confundem compreender com curar.
Entender é uma coisa.Transformar por dentro é outra.
E é precisamente neste ponto que muitas pessoas ficam presas na sua jornada de recuperação.
Cristina Fernandes






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