A Infância em nós
- Cristina Fernandes

- há 14 horas
- 3 min de leitura
Há muito tempo sabemos que a infância é determinante para uma vida adulta mais saudável e feliz. Mas, de vez em quando, um exemplo simples faz-nos perceber essa verdade de forma quase brutal.

Li recentemente a seguinte situação:se uma criança que chora com fome é ignorada enquanto chora, mas passa a ser alimentada apenas quando se cala e espera em silêncio, ela grava no inconsciente a seguinte “regra”:
“Quando eu quiser alguma coisa, não devo pedir, nem chorar. Basta esperar em silêncio que alguém, um dia, vai perceber.”
Este exemplo é poderoso. Parece lógico, faz sentido do ponto de vista do comportamento, mas é de uma crueldade silenciosa que muitas vezes nem imaginamos.Uma criança assim tende a tornar‑se um adulto que não luta pelo que quer, que não verbaliza necessidades, que espera calado que alguém adivinhe a sua dor. Pequenos gestos repetidos na infância podem moldar atitudes e padrões para a vida inteira, sem que a própria pessoa se aperceba da origem disso.
O que as crianças aprendem, mesmo quando ninguém as está a “ensinar”
Certa vez vivi uma experiência marcante com vizinhos de apartamento. As paredes eram finas, e os sons mais altos atravessavam‑nas com facilidade.
Todos os dias, o mesmo padrão:
Enquanto o marido estava em casa, a mãe parecia um anjo:
falava baixo, era carinhosa com as crianças, mostrava-se a esposa e mãe perfeitas.
Assim que o marido saía, a casa transformava‑se:
a mulher começava a gritar de forma descontrolada com as crianças, às vezes trancava-as no quarto ou na casa de banho para poder limpar a casa em paz.
O cenário era claro: um casamento em crise, uma mulher insegura, constantemente a competir com a ex-mulher do marido, obcecada em mostrar uma casa impecável e um comportamento exemplar na frente dele.Quando o homem chegava, via uma casa em ordem e uma esposa aparentemente tranquila. Não ouvia os gritos, não via o terror diário.
E eu pergunto:
O que é que aquelas duas crianças vão levar para a vida adulta a partir dessas experiências?
Será que vão ver o pai como um “herói” que, sem saber, transformava a mãe nervosa em alguém dócil e prestativa sempre que chegava a casa?
Será que algum dia se darão conta das oscilações de humor violentas a que foram expostas, não por culpa delas, mas pela insegurança da mãe?
De que maneira esse clima de medo e instabilidade as afectará nos relacionamentos futuros, na auto-estima, na forma de amar e de confiar?
E ainda: Será que, com todo o conhecimento em psicologia e psicanálise, conseguimos realmente revisitar essas vivências tão precoces e trabalhar as feridas que foram criadas quando ainda éramos tão vulneráveis e tão carentes de referências?
Não tenho respostas definitivas para estas perguntas. Mas gosto das dúvidas que elas levantam. Elas obrigam-nos a olhar com mais responsabilidade para a infância — a nossa e a dos nossos filhos.
Quer um filho saudável, feliz e seguro?
Proteja a infância dele.
Esteja presente.
Viva os dias com ele e, em muitos momentos, para ele.
Cuidado com aquilo que parece “bobo”: gritos frequentes, humilhações, ameaças, chantagens emocionais, mudanças de humor imprevisíveis.
A mãe que maltrata os filhos sempre que o marido sai de casa talvez não faça ideia do impacto que causa. Mas o cérebro e o coração daquelas crianças registam tudo: o medo, a confusão, a sensação de não saber nunca “quem” vão encontrar.
Ser criança é ser um ser em construção, um livro em branco.Ela absorve tudo: o tom de voz, os silêncios, os olhares, as explosões, os afectos e a falta deles. Não tem filtros para distinguir o que é saudável do que é destrutivo.Se, muitas vezes, nem os pais conseguem perceber o quanto falham, como é que uma criança conseguiria?
Não temos culpa da infância que tivemos
Mas temos responsabilidade pela infância que oferecemos.
Não somos responsáveis pelo ambiente em que crescemos, nem pelo que fizeram connosco quando éramos demasiado pequenos para nos defender. Para isso, hoje, existem recursos como psicoterapia, análise, grupos de apoio — formas de compreender, elaborar e curar, na medida do possível, o que nos aconteceu.
Mas, quando nos tornamos pais, tornamo-nos totalmente responsáveis pela infância dos nossos filhos.
Pelo que dizemos e também pelo que calamos.
Pelas atitudes que repetimos sem pensar.
Pelos padrões que escolhemos manter ou interromper.
Se for preciso, vale — e muito — procurar ajuda profissional.Cuidar da própria história é uma forma de proteger a história dos nossos filhos.
Porque o que acontece na infância não fica na infância.Fica connosco.Fica nas nossas escolhas, nas nossas relações, na nossa forma de amar e de existir.
Fica, muitas vezes, silenciosamente…mas fica para a vida toda.
Cristina Fernandes





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