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As Fases Cíclicas da Relação Tóxica

Esta estrutura cíclica é frequentemente descrita na psicologia como o Ciclo da Violência ou Ciclo do Abuso Narcisista. Compreender estas fases é vital para romper a névoa mental (conhecida como FOG — Fear, Obligation, Guilt) que mantém a vítima prisioneira.


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1. A Fase da Tensão (O "Caminhar sobre Ovos")

Nesta etapa inicial, o ambiente torna-se pesado e imprevisível. O abusador não explode de imediato, mas utiliza a microagressão e a desvalorização subtil para estabelecer domínio.


  • O Comportamento: Surgem críticas disfarçadas de "piadas", sarcasmo e o uso de silêncios punitivos. O narcisista ressuscita erros do passado para gerar culpa e insegurança.

  • O Impacto na Vítima: Desenvolve-se uma hipervigilância. A vítima tenta antecipar as necessidades do parceiro e moldar o seu comportamento para evitar o conflito, sentindo que qualquer palavra pode ser o rastilho para uma explosão.


2. A Fase da Crise (A Explosão e o Choque)

A tensão acumulada atinge o seu ápice. Aqui, o objetivo não é resolver um problema, mas sim descarregar a raiva e aniquilar a resistência da vítima.


  • O Comportamento: Ocorre o incidente agudo de abuso, que pode ser verbal (gritos, insultos, humilhação pública), emocional (ameaças de abandono) ou físico. O abusador utiliza táticas de confusão mental para paralisar a vítima, impedindo-a de reagir ou de procurar ajuda.

  • O Impacto na Vítima: Choque, medo profundo e sensação de impotência. A "paralisia" mencionada é uma resposta biológica ao trauma (congelamento), que o abusador aproveita para cimentar o seu controlo psicológico.


3. A Fase da Justificação (A Transferência de Culpa)

Após o pico da crise, entra-se num período de "ressaca emocional". O narcisista percebe que pode ter ido longe demais e corre o risco de perder a sua fonte de suprimento, iniciando a manobra de diversão.


  • O Comportamento: O abusador apresenta desculpas racionais para o seu comportamento irracional: "Eu só fiz aquilo porque tu me provocaste" ou "O meu trabalho é muito stressante". Ele minimiza o ocorrido (Gaslighting) e finge um arrependimento superficial que, na verdade, é uma forma de manipulação.

  • O Impacto na Vítima: A vítima, exausta e desesperada por paz, aceita a sua parcela de culpa (ou a culpa total). O desejo de acreditar que "foi um incidente isolado" leva-a a perdoar, alimentando a esperança de que o parceiro voltará a ser quem era no início.


4. A Fase da Lua de Mel (O Reforço Intermitente)

Esta é a fase mais perigosa, pois é a que cria a ligação traumática (trauma bond). O abusador transforma-se no parceiro ideal, resgatando a persona encantadora que usou na conquista.


  • O Comportamento: Demonstrações excessivas de afeto, promessas de mudança, presentes e atenção total. Ele valida os desejos da vítima e age como se a crise nunca tivesse acontecido. É uma performance de "parceiro perfeito" desenhada para apagar a memória da agressão.

  • O Impacto na Vítima: O cérebro da vítima recebe uma descarga de dopamina e oxitocina, que atua como uma droga. Esta "recompensa" após a dor cria uma dependência química e emocional, tornando quase impossível a decisão de sair da relação. A vítima convence-se de que "este é o verdadeiro ele", e que a crise foi apenas um desvio.


Conclusão: O Labirinto Sem Saída

O ciclo de uma relação tóxica não é uma linha reta, mas uma espiral descendente. Com o passar do tempo, as fases de "Lua de Mel" tornam-se cada vez mais curtas e raras, enquanto as fases de "Tensão" e "Crise" tornam-se mais frequentes e severas.

Este dinamismo funciona através do reforço intermitente: a imprevisibilidade da recompensa (o carinho) faz com que a vítima fique viciada na busca pela próxima fase positiva, ignorando o custo devastador para a sua saúde mental. Seja no seio familiar, amoroso ou profissional, o denominador comum é a erosão da identidade. Reconhecer que este ciclo é sistémico — e não acidental — é o primeiro e mais difícil passo para a libertação e para a recuperação da autonomia.


Cristina Fernandes






 
 
 

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