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4 Mitos dos Relacionamentos Tóxicos

Atualizado: há 19 horas

A esta altura, é provável que já tenhas reconhecido que estiveste numa relação abusiva com alguém profundamente manipulador e que estejas a começar a perceber o impacto que essas experiências tiveram na tua vida. Ou talvez conheças alguém que está a atravessar esse momento de vida...


Close-up view of a serene meditation space with soft lighting
A serene and welcoming meditation space for self-discovery.


Quero partilhar contigo 4 mitos muito comuns sobre o processo de recuperação após o abuso narcisista — ideias que, sem dares por isso, podem manter-te preso(a) ao ciclo de repetição: voltas ao mesmo agressor ou encontras novos com um padrão semelhante, porque as feridas mais profundas ainda não foram verdadeiramente cuidadas.


Mito 1 – Agora que descobri o que é “abuso narcisista” e identifiquei os narcisistas na minha vida, tudo vai melhorar


Encontrar a expressão “abuso narcisista” é, muitas vezes, um verdadeiro alívio. De repente, percebes que:

  • não foi “culpa tua”

  • isto é uma realidade que acontece a milhões de pessoas

  • não estás sozinho(a)

Esse momento de descoberta é importante, mas é apenas o início da jornada. Faz parte do primeiro estágio da recuperação.

Depois de colocares nome ao que viveste e perceberes a dinâmica do narcisismo, continua a ser necessário fazer o trabalho interior:

  • Identificar o que, dentro de ti, precisa de cura e de mudança, para que deixes de tolerar abuso.

  • Transformar crenças sobre ti próprio(a) (“não sou suficiente”, “ninguém me vai amar”, “tenho de me adaptar ao outro para não ser abandonado(a)”).

  • Actualizar atitudes e comportamentos para que possas atrair e escolher relações saudáveis, onde és genuinamente respeitado(a) e valorizado(a).

  • Reconstruir a tua vida com mais alinhamento, paixão e propósito, em vez de viver apenas em função da dor e da defesa.


Informação liberta, mas não substitui a cura.


Mito 2 – Cortar contacto (ou manter contacto mínimo) com o agressor significa que já estou curado(a)


Estabelecer nenhum contacto (ou o mínimo indispensável, por exemplo quando há guarda partilhada de filhos) é um limite essencial. Esse corte:

  • protege-te de novo abuso

  • impede que sejas constantemente reactivado(a)

  • cria o espaço seguro de que precisas para começar a sarar

Sem esse limite, ficas preso(a) num ciclo de retraumatização: cada mensagem, chamada ou encontro pode deitar por terra o que já tinhas avançado.

Mas é importante compreender: ausência de contacto não é o mesmo que cura interior.

Se não trabalhares o trauma e as feridas emocionais que ficaram, a tua mente e o teu corpo vão continuar a:

  • atrair ou aceitar novas pessoas abusivas

  • repetir padrões de relação muito semelhantes, apenas com “rostos diferentes”

Isto não é fraqueza tua; é a forma como o inconsciente tenta resolver o que ficou por integrar.Até que faças o trabalho de autocura, o padrão tende a repetir-se e, com cada nova relação abusiva, o trauma aprofunda-se.


Cortar contacto é um passo fundamental. Curar o que o contacto destruiu é outro passo, igualmente indispensável.


Mito 3 – Contar a minha história vai fazer a dor desaparecer


Poder contar o que viveste é extremamente importante:

  • Dá voz a quem foi silenciado.

  • Quebra o “mandato de silêncio” imposto pelo abuso.

  • Desmonta a mensagem de que “és louco(a)” e “ninguém vai acreditar em ti”.

  • Alivia o peso de carregar tudo sozinho(a).

Falar é, sem dúvida, um acto de poder pessoal. Mas, por si só, não chega para curar o trauma.

O trauma não fica armazenado apenas nas áreas do cérebro ligadas à linguagem e à memória narrativa. Ele vive sobretudo:

  • nas zonas emocionais e mais primitivas do cérebro

  • no sistema nervoso

  • no corpo (tensões, sintomas físicos, estados de alerta permanente)

Ou seja, podes entender racionalmente o que aconteceu, contar a tua história de forma coerente e, ainda assim, continuar:

  • em hipervigilância

  • com flashbacks emocionais

  • com dificuldade em confiar

  • a sentir culpa, vergonha ou medo


A terapia de conversa pode ser um apoio valioso, mas não basta falar sobre o trauma para o transformar.É preciso recorrer a um trabalho interno mais profundo e holístico, que envolva:

  • corpo

  • emoção

  • crenças profundas

  • padrões de relação

  • e, muitas vezes, também a dimensão espiritual e de sentido


Mito 4 – O tempo cura tudo


Esta é uma das frases que mais vais ouvir de quem não compreende o que é um abuso narcisista:“Dá tempo ao tempo, vais ver que passa.”

Para muitas separações, isto até pode ser relativamente verdade.Mas, quando a relação foi com um narcisista, o cenário é bem diferente.


É comum ouvirem-se histórias de pessoas que:

  • deixaram o agressor há meses ou anos

  • e, ainda assim, continuam a sentir-se em cacos por dentro

  • e a atrair novas pessoas igualmente abusivas ou manipuladoras


O tempo pode:

  • atenuar a intensidade da dor imediata

  • criar distância em relação a eventos e pessoas


Mas o tempo, por si só, não cura trauma.Pelo contrário, quando nada é trabalhado internamente, o tempo pode até jogar contra ti:

  • meses e anos em estado de impotência, confusão e desesperança

  • padrões repetidos em relações íntimas, no trabalho e na família

  • desgaste progressivo na autoestima, na confiança e até na saúde física


Cada nova situação abusiva acumula trauma sobre trauma, aprofundando:

  • medo

  • desconfiança

  • desvalorização pessoal

  • sintomas de ansiedade, depressão e esgotamento


É por isso que tantas pessoas que passaram por relações abusivas desenvolvem formas de Perturbação de Stress Pós-Traumático Complexo (TEPT-C).

Não é fácil recuperar após o abuso narcisista, mas é possível.Implica um trabalho consistente, ao longo do tempo, nas partes de ti que ficaram mais feridas por estas experiências.

Porque é que estes mitos são tão comuns?

Hoje existe muita informação disponível sobre narcisismo e abuso narcisista, o que é extremamente útil para compreender o que te aconteceu e com quem estiveste envolvido(a).O problema é que muitas pessoas confundem compreender com curar.


Entender é uma coisa.Transformar por dentro é outra.


E é precisamente neste ponto que muitas pessoas ficam presas na sua jornada de recuperação.


Cristina Fernandes



 
 
 

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