Quando a educação dói: mães tóxicas
- Cristina Fernandes

- há 17 horas
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Neste artigo vamos falar sobre mães tóxicas. Mas é importante lembrar: também existem pais, avós e outros cuidadores tóxicos. São pessoas que “educam” sem favorecer o crescimento pessoal nem a segurança emocional da criança. Assim, quando esses filhos forem lançados ao mundo, a sua independência física e emocional pode ficar seriamente comprometida..

O papel da mãe costuma ser central na educação. É, em geral, a primeira referência de carinho e afecto, aquela de cujos braços a criança parte para o mundo levando consigo a certeza de que existe um lugar de amor ao qual pode voltar. Numa relação saudável, essa presença amorosa é a base para um amadurecimento emocional inteligente e equilibrado.
Nas mães tóxicas, porém, o amor é imaturo. Elas projectam nos filhos as suas próprias inseguranças, usando-os como apoio para se reafirmarem e obterem maior controlo sobre a vida deles e, muitas vezes, sobre a sua própria.
O que está por detrás da personalidade das mães tóxicas?
Por mais contraditório que pareça, por trás de muitos comportamentos de uma mãe tóxica existe, sim, amor. Mas o amor tem sempre dois lados:
um lado capaz de nutrir, fortalecer e favorecer o crescimento pessoal
e um lado distorcido, egoísta e possessivo, que sufoca, controla e pode ser profundamente destrutivo.
O mais grave é que esta forma de amor tóxico recai sobre crianças, precisamente na fase em que estão a formar a sua personalidade e a desenvolver a auto-estima. As consequências são grandes vazios internos: insegurança, medo, dificuldade em se posicionar, sensação de não ser suficiente ou de não ter valor.
Algumas dimensões psicológicas comuns em mães tóxicas:
1. Personalidade insegura
São mulheres com baixa auto-estima e pouca autossuficiência, que acabam por ver nos filhos uma forma de salvação. Tentam moldá-los para que permaneçam ao seu lado, preenchendo vazios que elas próprias não conseguem encarar.
Quando percebem que os filhos começam a conquistar autonomia e a construir a própria vida, sentem uma ansiedade intensa, pois temem, acima de tudo, a solidão. Em resposta, recorrem a estratégias subtis de manipulação para os manter por perto, projectando neles a sua própria falta de segurança e de valor.
2. Obsessão pelo controlo
Estas mães tendem a controlar todos os aspectos da própria vida e transportam esse padrão para a relação com os filhos. Têm enorme dificuldade em respeitar limites. Para elas, controlar é sinónimo de segurança e de “cuidar bem”.
O problema é que, muitas vezes, exercem esse controlo acreditando estar a fazer o melhor:
“Vou tratar de tudo por ti para te facilitar a vida.”“Não quero que erres como eu errei.”
Este tipo de superprotecção rouba à criança a oportunidade de aprender com as próprias escolhas, desenvolver coragem, competência e independência. O controlo pode ser apresentado como amor, mas, na prática, impede o crescimento.
3. Projecção de desejos não realizados
“Quero que tenhas o que eu não tive.”“Não quero que cometas os mesmos erros que eu.”“Quero que te tornes aquilo que eu não consegui ser.”
Frases como estas revelam outro traço típico: projectar nos filhos sonhos frustrados e desejos não realizados. Em vez de perguntar o que a criança deseja para si, impõem um guião de vida pronto, convencidas de que isso é amor incondicional.
Na realidade, trata‑se de um amor interessado: o foco está menos no bem‑estar do filho e mais em reparar algo da própria história. O filho torna‑se uma extensão da mãe, e não um indivíduo com direito a escolher o seu próprio caminho.
Como lidar com uma mãe tóxica?
O primeiro passo é tomar consciência de que é preciso quebrar o ciclo de toxicidade. Sabes o quanto isso doeu e ainda dói. A partir de agora, precisas de abrir as asas para seres quem és, e não apenas quem a tua mãe espera que sejas.
Isso implica aprender a dizer “não”, colocar as tuas necessidades em primeiro lugar em muitos momentos, estabelecer limites claros: até aqui permito, daqui para a frente não. São barreiras de protecção emocional que ninguém tem o direito de ultrapassar.
Por se tratar da tua mãe, romper ou flexibilizar este padrão pode ser doloroso. Dizer a verdade pode parecer agressivo, mas muitas vezes é uma necessidade vital. Não se trata de a magoar, mas de deixar claro que não aceitas mais ser magoado. Esta distinção precisa de ficar muito nítida dentro de ti.
Também é fundamental reconhecer a manipulação, que por vezes é tão subtil que passa despercebida: está nas palavras, nos gestos, nos silêncios, nos olhares de desaprovação. E é importante não cair na armadilha da vitimização, um recurso muito usado por pessoas tóxicas. Colocam‑se como as mais feridas e incompreendidas, enquanto tu carregas os danos reais.
Lembra‑te sempre: as tuas dores são legítimas. Reconhecer isso não significa deixar de amar a tua mãe, mas começar, finalmente, a amar também a ti próprio.
Cristina Fernandes





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